O modo de ver o mundo, os comportamentos sociais, a postura física, gestos, formas de caminhar, olhar, comer e os signos lingüísticos são produtos de uma mesma herança cultural. Assim, as pessoas podem ser identificadas culturalmente pela forma como se vestem, caminham, comportam-se, manifestam-se, comem e conversam como padrões específicos de uma sociedade. Segundo SACKMANN, podemos caracterizar a cultura da seguinte maneira: “cultura ou civilização, é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e qualquer outra capacidade e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade” (SACKAMANN citado por Marchiori, 2006, p. 55).

Assim como nas demais culturas, a cultura flagger possui conhecimentos específicos, crenças, valores, uma arte própria, costumes e hábitos peculiares. A cultura flagger, de uma maneira conceitual, é a reunião de vários elementos complexos que constituem sua caracterização.

Essa cultura teve origens em várias civilizações. Talvez uma das mais antigas remonta a China de 3 mil anos atrás. No folclore Chinês as bandeiras eram utilizadas durante manifestações culturais desse povo ancestral. Eram comuns em formas coloridas e manipuladas em seus mastros por pessoas. A graça e a leveza compunham a cena da época. Quando giradas, a pessoa que as manipulava interagiam com outros dançarinos, sendo passadas por cima ou por baixo dos mesmos. Muito tempo depois, por volta do século XIII a XVII, na época Medieval, os agitadores de bandeiras ou flaggers eram portadores de estandartes das companhias militares de cidades espalhadas por toda a Europa. Era a época das cruzadas. Com movimentos graciosos acompanhavam e dirigiam o volume do exército. Sobretudo, na Itália, realizavam demonstrações com manobras complexas com suas bandeiras geralmente após um acontecimento especial, como o fim de uma guerra. Por volta dessa mesma época, as bandeiras eram uma parte importante nos festivais de chamber of rhetoric, uma forma de midia popular da Idade Média. As performances naquela época eram individuais ou em grupo. Uma boa referência seria uma passagem do filme "Sob o sol de Toscana" (Under Toscana Sun, EUA, 2003) onde se mostra um Flag Festival. Existem ainda alguns grupos na atualidade que remontam essa arte desde a tradição dessa época no norte da Bélgica, chamados “Gelmelzwaaiers” e na Itália, os “Bandieranti di Gubbio”. Essa manifestação resurge na atualidade por volta da década de 80, no continente Norte Americano. As bandeiras receberam uma pequena, mas importante modificação: foram-lhes retirados os mastros e inseridos pesos flexíveis ao tecido, geralmente de chumbo, tornando-as mais sinuosas aos movimentos de quem as manipulava. As bandeiras passariam a ter mais ondulação e riquesa de movimentos. O flagger poderia ser também chamado de flagwaver (do Inglês, ondulador de bandeiras). Essa arte se estendeu por várias continentes, sendo inserida no Brasil principalmente no final do século 20, por volta do ano de 1999.

A arte flagger pode ser ensinada de forma oral e/ou demonstrativa por um mestre ou flagger (no Inglês esse tipo de flagger na posição de professor é denominado flag-dad) já com certa bagagem técnica e cultural podendo passar seus conhecimentos para os novos aspirantes. Estes aspirantes são denominados aprendizes ou, no original do Inglês, flag-babies. São então ensinados e demonstrados os movimentos base que compõe a manipulação dos tecidos. Durante esse ato o aspirante a flagger recebe também um pouco da história apreendida por aquele mestre ou professor. A cultura então é passada adiante. A composição dos ensinamentos sobre a cultura flagger, bem como a manipulação dos tecidos em si, se dá através do Rito de Passagem. Nesse rito são ensinados os movimentos básicos que evoluirão de acordo com o aprendizado para movimentos mais complexos, composição rítmica, noção espacial, valores históricos, interpretações de sentidos até mesmo pela pintura de uma bandeira pelo próprio iniciante em um outro estágio mais avançado do processo. O rito de passagem é onde se influencia na composição da cultura flagger naquele indivíduo. E é nessa interpretação de sentidos que se manifesta o potencial artístico do flagger. Assim, as bandeiras podem se tornar uma arte. Segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa:

“Atividade que supõe a criação de sensações ou estados de espírito, de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação (...) é a capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos” (AURÉLIO, 2ª. Ed.)

Dessa maneira, a arte pode ser entendida como a expressão de um artista, seguindo regras definidas ou não, apresentando para o mundo sensibilidade e idéias, assimiladas pela cultura flagger, cuja harmonia se apresenta de forma diferente em cada uma delas e pode mudar em cada época. De forma abrangente é a elaboração de um conjunto de idéias e valores, beleza, equilíbrio, harmonia, sensações, emoções e cultura sintetizadas em formas (plásticas, música, cinema, teatro, dança, arquitetura, etc.) que podem ser percebida pelos sentidos, espírito e o coração. Está ligada a fatores religiosos, políticos, sociais e simbólicos. De certa maneira, a arte é a forma que o artista usa para comunicar-se dentro de determinada cultura. Na cultura flagger, as bandeiras manipuladas por um flagger se propõem a modificar o espaço em sua volta, segundo seus sentimentos, aprendizados e evolução dentro da própria cultura, colocando para fora suas sensações e percepções. Através da dança que ele interpreta, os movimentos são percebidos pelos sentidos, pela alma e pelo coração. Assim, o flagger é um artista que permite a visualização da música pelas pessoas através da interpretação de sua alma estampada nas cores e movimentos de suas bandeiras. Quando um flagger roda suas bandeiras e consegue passar sentimento e emoção, por definição, se traduzem em arte.

Bibliografia:

MARCHIORI, Marlene. “Cultura e Comunicação Organizacional – um olhar estratégico sobre a organização”, ed. Difusão, São Caetano do Sul, p. 53-64.

http://www.historiadaarte.com.br
Acesso em 06/03/2008.

http://www.artcanal.com.br/oscardambrosio/conceito.htm
Acesso em 06/03/2008.

André Flagger